julho 29, 2026

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Centros de dados poderão exigir investimento global de 6,7 biliões de dólares até 2030

Centros de dados poderão exigir investimento global de 6,7 biliões de dólares até 2030

A expansão da inteligência artificial está a transformar o mercado global de centros de dados e a impulsionar um dos maiores ciclos de investimento da história da infraestrutura tecnológica. Segundo uma projeção da McKinsey, o setor poderá necessitar de cerca de 6,7 biliões de dólares em investimento até 2030, refletindo o crescimento acelerado da procura por capacidade de processamento, energia e redes de elevada velocidade.

Inteligência artificial absorve a maior fatia do investimento

Do montante total previsto, cerca de 5,2 biliões de dólares destinam-se à infraestrutura associada à inteligência artificial, enquanto os restantes 1,5 biliões de dólares correspondem às aplicações tecnológicas tradicionais.

Embora este valor permita perceber a dimensão do investimento necessário, importa distinguir os diferentes indicadores utilizados no setor. O investimento anunciado, a capacidade elétrica solicitada, a potência contratada e a infraestrutura efetivamente operacional representam fases distintas do desenvolvimento de um projeto.

Um campus de centros de dados pode já dispor de terrenos, projeto concluído e clientes interessados sem estar ligado à rede elétrica. Da mesma forma, pode contar com energia disponível e equipamentos instalados, mas operar abaixo da capacidade devido à ausência de servidores ou de cargas de trabalho suficientes.

Porque é difícil comparar os números do setor

Esta diferença explica porque os números apresentados pela indústria parecem tão elevados e, simultaneamente, difíceis de comparar.

Os valores em dólares representam investimento financeiro. Já megawatts (MW) e gigawatts (GW) medem potência elétrica, ou seja, a capacidade de fornecer ou consumir energia num determinado momento. Por sua vez, os terawatts-hora (TWh) indicam a energia consumida ao longo de um período.

Nenhuma destas unidades revela, por si só, quantos servidores estão realmente em funcionamento, qual o nível de ocupação dos centros de dados ou quanto rendimento geram.

Como será distribuído o investimento

Equipamentos tecnológicos concentram a maior parcela

Segundo a McKinsey, cerca de 60% do investimento destinado à infraestrutura de inteligência artificial será aplicado em chips e outros equipamentos tecnológicos responsáveis pelo processamento, armazenamento e interligação dos servidores.

Outros 25% serão direcionados para produção e fornecimento de energia, sistemas de refrigeração e infraestrutura elétrica, elementos indispensáveis para garantir um funcionamento contínuo e estável perante cargas computacionais intensivas.

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Os restantes 15% destinam-se à aquisição de terrenos, construção de edifícios e restantes infraestruturas físicas necessárias para acolher toda a componente tecnológica.

Esta divisão evidencia que reduzir um centro de dados de IA apenas às unidades de processamento gráfico (GPU) oferece uma visão incompleta. Os chips dependem igualmente de memória, armazenamento, redes de elevada velocidade, fibra ótica, fornecimento elétrico e sistemas de arrefecimento. Qualquer atraso numa destas áreas compromete também a capacidade de processamento.

A estimativa central da McKinsey para a IA situa-se nos 5,2 biliões de dólares, mas a consultora admite um intervalo entre 3,7 biliões e 7,9 biliões de dólares, dependendo da velocidade de adoção empresarial, da evolução dos modelos de inteligência artificial, da disponibilidade de semicondutores e das decisões regulatórias.

Por esse motivo, o valor de 6,7 biliões de dólares não representa contratos já assinados, mas sim uma estimativa do capital que poderá ser necessário caso a procura e a construção evoluam conforme o cenário projetado.

Entretanto, a Reuters Breakingviews, com base em estimativas da Visible Alpha, calcula que Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle poderão investir, em conjunto, cerca de 4,8 biliões de dólares em despesas de capital entre 2026 e 2030, sobretudo em centros de dados, servidores, redes e outros ativos tecnológicos.

A eletricidade tornou-se o principal desafio

A Agência Internacional da Energia estima que os centros de dados consumiram aproximadamente 415 TWh de eletricidade em 2024, o equivalente a cerca de 1,5% do consumo mundial.

No cenário de referência da organização, esse consumo poderá atingir 945 TWh em 2030, representando pouco menos de 3% da procura global de eletricidade. Os servidores acelerados utilizados em aplicações de inteligência artificial serão responsáveis por quase metade desse crescimento.

Embora o peso global continue relativamente reduzido, as dificuldades tornam-se evidentes nas regiões onde numerosos centros de dados competem pela mesma infraestrutura elétrica.

Nos Estados Unidos, quase metade da capacidade instalada em 2024 encontrava-se concentrada em cinco grandes polos: Northern Virginia, na região de Washington, Chicago, Dallas, Omaha e Atlanta.

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Esta concentração explica porque uma percentagem aparentemente modesta do consumo mundial pode originar estrangulamentos significativos em determinadas cidades. A existência de energia disponível noutras regiões não resolve limitações locais na ligação à rede elétrica.

A Agência Internacional da Energia estima ainda que 20% dos projetos planeados poderão sofrer atrasos caso os constrangimentos das redes elétricas não sejam resolvidos. Em economias desenvolvidas, a construção de novas linhas de transporte de energia pode demorar entre quatro e oito anos. Paralelamente, aumentaram também os prazos de entrega de transformadores, disjuntores, cabos e equipamentos de distribuição elétrica.

Segundo o mesmo cenário, cerca de metade da produção adicional de eletricidade necessária até 2030 deverá provir de fontes renováveis, embora o gás natural e o carvão continuem a desempenhar um papel relevante no abastecimento.

Brasil evidencia desafios na expansão dos centros de dados

O Brasil ilustra bem a diferença entre projetos anunciados e capacidade efetivamente disponível.

A Empresa de Pesquisa Energética registou 26,2 GW de projetos de centros de dados em análise junto do Ministério de Minas e Energia. Contudo, este valor corresponde apenas a pedidos e estudos apresentados às autoridades e não significa que essa capacidade já esteja construída ou ligada à rede.

Cada empreendimento terá ainda de ultrapassar etapas como licenciamento, ligação à rede elétrica, expansão da transmissão, financiamento, construção e instalação dos equipamentos tecnológicos.

No estado de São Paulo, cerca de 1,6 mil milhões de reais em obras recomendadas poderiam libertar aproximadamente 4 GW de capacidade de ligação, enquanto outros 5 GW permaneciam dependentes de estudos adicionais.

O caso demonstra que a disponibilidade de energia, por si só, não basta. Para um projeto avançar são igualmente necessários rede elétrica, fibra ótica, licenças, equipamentos e calendário compatíveis.

São Paulo continua a ser o maior mercado de centros de dados da América Latina. A CBRE registou um inventário grossista de 536,7 MW no primeiro trimestre de 2026.

Em conjunto, São Paulo, Querétaro, Santiago e Bogotá somavam 1.045 MW, enquanto Northern Virginia, sozinha, atingia 4.182 MW, com uma taxa de disponibilidade de apenas 0,3%, demonstrando uma ocupação praticamente total.

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Meta e BlackRock recorrem a novo modelo de financiamento

A Meta e a BlackRock criaram uma joint venture para financiar, construir e operar um campus de centros de dados em El Paso, no Texas, permitindo à Meta reduzir o esforço financeiro direto.

A tecnológica transfere para a nova sociedade terrenos e ativos em construção avaliados em 2,3 mil milhões de dólares, mantém uma participação de 20% e assegura a procura futura pela infraestrutura.

Os fundos geridos pela BlackRock adquirem os restantes 80%, investindo aproximadamente 4,9 mil milhões de dólares em capital próprio e participando numa estrutura que inclui 12,5 mil milhões de dólares em financiamento por dívida.

O campus encontra-se em construção, deverá disponibilizar 1 GW de capacidade computacional e tem entrada em funcionamento prevista para 2028. O acordo inclui ainda um pagamento adicional de 1.000 milhões de dólares à Meta como ajustamento da sua participação.

Este modelo procura transferir parte dos custos e riscos da construção para investidores em infraestruturas e instituições financeiras, garantindo simultaneamente à Meta acesso de longo prazo à capacidade computacional necessária.

Mercado aposta em novos modelos para financiar a expansão

A operação representa uma tendência crescente no setor: transformar centros de dados dedicados à inteligência artificial em ativos capazes de atrair investimento institucional. Neste modelo, as grandes empresas tecnológicas asseguram a procura futura, os gestores de ativos estruturam o financiamento e a dívida é sustentada por contratos de utilização de longo prazo.

Ainda assim, permanece um desafio relevante para o mercado: assumir investimentos de vários milhares de milhões de dólares antes de existir uma confirmação definitiva de que as receitas geradas pela inteligência artificial acompanharão a dimensão destes projetos.