No dia 19 de novembro acontece no plenário de Atibaia, a partir das 19h, uma Roda de Conversa como parte da programação do Mês da Consciência Negra, elaborada pela Secretaria de Cultura e Eventos. No evento também haverá a apresentação do livro “Oyá e os Escolhidos”, da escritora Sophia Aloha, e a abordagem “Racismo Estrutural”, com a facilitadora Silvana Cotrim, do Coletivo Negra Visão.

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Confira a resenha de “Oyá e os Escolhidos”:

Você é jovem. Afrodescendente. Gosta de histórias de aventura, do fantástico, mágico, misterioso. Já Leu Harry Potter, Percy Jackson, George R. R. Martin, Entrevista com o Vampiro, assiste às séries e filmes dos respectivos livros e algumas outras. O problema é que em todas os personagens, o cenário, as piadas e até o idioma nada têm a ver com sua realidade ou com sua identidade étnica. O que serviria de consolo seria “O Pica-pau Amarelo” do Monteiro Lobado, mas está a anos luz da sua época.

Livros de mistério/terror do século XIX são criticados por motivos incompreensíveis. Então, não tem livro juvenil com protagonistas jovens, negros, ou, ao menos, que abordem algo da minha realidade? Tem sim. Oyá e os Escolhidos, de Sophia Aloha (Chiado Editora, 2018), reúne todos os predicados e ingredientes necessários à Literatura Juvenil de qualidade: narrativa fluida, linguagem acessível, bastante coloquial com alguns toques aqui e ali de oralidade, mas mantendo a normatividade sem resvalar para o aborrecido. A trama é divertida, intrigante, instigante e – este é o inédito e o toque de midas deste livro – é ambientada dentro da realidade brasileira, realidade de classes menos favorecidas, ressalte-se, e instala-se dentro do contexto mágico-maravilhoso das tradições afro-brasileiras.

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Os heróis são meninos de classe C e D e os super-heróis (usemos o termo pensando em forças acima do humano) são Orixás: deuses do panteão Iorubano, Iorubás sendo uma grande nação africana que chegou ao Brasil em porões dos navios negreiros. Orixás são o equivalente, em Iorubá, aos deuses Gregos, Romanos, Vikings, etc. Equivalentes, não iguais. Os Orixás têm sua especificidade dentro da cultura e tradição africana, especificidade cuidadosamente buscada e mantida por Aloha em sua narrativa. O maior predicado do livro, na opinião desta resenhista, está no equilíbrio encontrado pela autora ao trazer para uma história juvenil, seres que até então estavam exclusivamente vinculados às religiões afro-brasileiras. Oyá e os escolhidos não é, de maneira alguma, uma narrativa de cunho religioso muito menos doutrinário. Assim como não o são Percy Jackson e os Olympianos ou Harry Potter. A diferença é que Os Orixás pertencem a uma tradição ainda viva, porém desconhecida por afro descendentes. Foi essa a preocupação que motivou a autora a escrever “Oyá”. 

Professora de jovens aprendizes em Itatiba, Sophia identificou, através de suas aulas, não apenas a precariedade no trato da tradição e cultura africanos bem como no que tange à representatividade dessa etnia no imaginário literário. Enquanto o Samba, a Capoeira, as Congadas são respeitadas, o folclore Iorubano é excluído das manifestações culturais porque cultiva-se a demonização das religiões de matriz afro. Ao contar lendas e falar sobre essas tradições culturais, Sophia viu o encantamento de muitos jovens afro descendentes e de outras etnias. Inspirada em alguns dos seus pupilos, Sophia desenhou seus personagens e criou sua fantasia aventuresca ambientada nas tradições Iorubanas. A narrativa é equilibrada o suficiente para que não se misture religião com cultura. Orixás são deuses africanos e, consequentemente, o livro fala de mas não ensina a religião de matriz Iorubana. Em lugar dos prodígios dos filhos dos dos deuses Gregos e das magias de Hogwarts, vemos jovens brasileiros tutelados por deuses africanos.

O espaço do mágico se desenrola na maior parte do tempo na Morada dos Orixás, espaço ficcional desenhado por Aloha, com inspiração nas tradições Iorubanas. Como em Harry Potter, o espaço do mágico e do real se interrelacionam, harmoniosamente, numa verossimilhança ficcional digna de Lobato e JK Rowling. O tempo flui linearmente, ao menos neste primeiro volume da série. Sim, tem mais por vir. Aloha fez a lição de casa direitinho, com direito a final pra pedido de bis  e “cadê o resto?”. O livro é recomendável principalmente para jovens, mas agrada a todas as idades. Os leitores, pais e pedagogos podem estar tranquilos, pois, o único risco é do leitor ficar tão enfeitiçado pela narrativa, que podem ser fisgados para sempre para o amor literário e pela cultura brasileira.

Por: Yndiara Lampros

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